Estamos sempre de passagem... A vida é um grande momento de passagem, há o tempo de nascer e há o tempo de morrer. Assim como as estações do ano. Há a primavera com as flores e o verão com o calor, mas há também o outono quando as folhas caem e o inverno vem trazendo o frio.
(Vera Weissheimer)
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
terça-feira, 14 de setembro de 2010
Quando criança, muitas vezes perguntei à minha bisavó Alvina sobre os porquês de acontecerem coisas ruins às pessoas boas que eu conhecia. Contando suas histórias e causos, minha bisavó encontrou uma maneira de responder às minhas perguntas e acalmar-me em minhas dúvidas. Nunca tive certeza se o que ela me contava era verdadeiro ou inventado. Na verdade, muito mais tarde aprendi que as histórias, quando servem para iluminar aquelas partes da vida que ainda não compreendemos, tornam-se verdadeiras – porque a luz que lançam sobre nossas dúvidas e medos é verdadeira.
Uma das histórias que muitas vezes ouvi como resposta à minha pergunta fala sobre uma mulher desesperada que procura um remédio para tirar seu bebê do colo da morte.
Uma mulher viu seu filho, ainda bebê, ficar doente e morrer em seus braços. Desesperada por não saber nem conseguir fazer nada para salvar seu filho, a pobre mulher saiu pelas ruas implorando que alguém a ajudasse a encontrar um remédio que o salvasse da morte. Como ninguém podia ajudá-la, a mulher foi procurar um sábio que morava nas montanhas. Com a criança nos braços, tentou explicar sua angústia.
O sábio homem, então, respondeu que havia somente uma maneira para que a mulher pudesse encontrar alívio para a sua dor. Ela deveria voltar para a sua cidade e trazer para ele uma semente de mostarda de uma casa onde não houvesse sofrimento por causa de alguma perda. A mulher ficou cheia de esperança. Foi, então, de casa em casa. Mas, para sua surpresa, ouvia sempre a mesma resposta. “Muita gente já morreu nesta casa”; “muitos sonhos se perderam nessa família”; “desculpe, já houve morte em nossa família”; “aqui nós perdemos um bebê também”.
Depois de percorrer todas as casas de sua aldeia sem conseguir a sua semente de mostarda, a mulher compreendeu a lição. Então, voltou à montanha e disse ao sábio: “A dor me deixou cega.
Eu me sentia a única pessoa sofrendo na face da terra, a única que perdera um filho, a única a segurar seu bebê morto nos braços.
Já recebi essa história por e-mail como sendo uma lenda chinesa, uma história russa, uma fábula tibetana e por último como uma lenda africana. Esse tipo de fábula se espalha por diferentes culturas, porque a necessidade de entender a dor provocada pela morte de alguém que amamos é a mesma em qualquer parte do mundo. Talvez esta tenha sido criada por alguém que precisou dar sentido à sua dor ou à dor de quem amava e se fazia a mesma pergunta: por que coisas ruins acontecem às pessoas boas?
Uma das histórias que muitas vezes ouvi como resposta à minha pergunta fala sobre uma mulher desesperada que procura um remédio para tirar seu bebê do colo da morte.
Uma mulher viu seu filho, ainda bebê, ficar doente e morrer em seus braços. Desesperada por não saber nem conseguir fazer nada para salvar seu filho, a pobre mulher saiu pelas ruas implorando que alguém a ajudasse a encontrar um remédio que o salvasse da morte. Como ninguém podia ajudá-la, a mulher foi procurar um sábio que morava nas montanhas. Com a criança nos braços, tentou explicar sua angústia.
O sábio homem, então, respondeu que havia somente uma maneira para que a mulher pudesse encontrar alívio para a sua dor. Ela deveria voltar para a sua cidade e trazer para ele uma semente de mostarda de uma casa onde não houvesse sofrimento por causa de alguma perda. A mulher ficou cheia de esperança. Foi, então, de casa em casa. Mas, para sua surpresa, ouvia sempre a mesma resposta. “Muita gente já morreu nesta casa”; “muitos sonhos se perderam nessa família”; “desculpe, já houve morte em nossa família”; “aqui nós perdemos um bebê também”.
Depois de percorrer todas as casas de sua aldeia sem conseguir a sua semente de mostarda, a mulher compreendeu a lição. Então, voltou à montanha e disse ao sábio: “A dor me deixou cega.
Eu me sentia a única pessoa sofrendo na face da terra, a única que perdera um filho, a única a segurar seu bebê morto nos braços.
Já recebi essa história por e-mail como sendo uma lenda chinesa, uma história russa, uma fábula tibetana e por último como uma lenda africana. Esse tipo de fábula se espalha por diferentes culturas, porque a necessidade de entender a dor provocada pela morte de alguém que amamos é a mesma em qualquer parte do mundo. Talvez esta tenha sido criada por alguém que precisou dar sentido à sua dor ou à dor de quem amava e se fazia a mesma pergunta: por que coisas ruins acontecem às pessoas boas?
Muitas vezes ouvi a minha bisavó Alvina, rodeada de mulheres, contar suas histórias em torno do fogão a lenha. Outras vezes, ela ficava em silêncio e ouvia atentamente as dores que lhe eram confidenciadas, enquanto tomava o seu chimarrão. Era muito comum que depois da morte de algum vizinho as mulheres se reunissem em sua casa. Então, era hora de costurarem velhas e novas recordações para que o morto não fosse tão rapidamente esquecido.
Há uma pequena história que lembro ter ouvido minha bisavó contar inúmeras vezes. É sobre o medo de se arriscar a viver. Mesmo que fiquemos parados no mesmo lugar por horas ou dias, ainda assim, a vida vai passar – por nós –, o tempo vai passar e vamos envelhecer sem termos vivido, porque estávamos parados. A história era mais ou menos assim:
Era uma vez um riacho de águas limpas e cristalinas que serpenteava por montanhas lindíssimas. Em certo ponto de seu percurso, o riacho notou que à sua frente havia um pântano imundo, por onde teria que passar com as suas águas transparentes.
Olhou, então, para Deus e protestou: “Senhor, que castigo! Eu sou um riacho tão límpido, tão formoso, e você me obriga a atravessar um pântano sujo como esse? Como faço agora?”
E Deus respondeu: “Isso depende de sua maneira de encarar o pântano. Se ficar com medo, vai diminuir o ritmo de seu curso, dará voltas e, inevitavelmente, acabará misturando suas águas com as do pântano, o que o tornará igual a ele.
Se você enfrentar o pântano com velocidade, com força, com decisão e coragem, vai atravessá-lo abrindo caminho em meio à lama. Deixará para trás parte de suas águas, mas vencerá o pântano. Mas o que é perder parte das águas para a tragédia comparado a se perder totalmente no pântano?”
Minha bisavó era a conselheira da vizinhança. As conversas na sua cozinha eram terapêuticas. “Não é preciso ter pressa em soltar os nós”, dizia ela. Portanto, não apresse quem está do seu lado sofrendo em silêncio. Há tempo de ficar calado e há tempo de falar. Tudo terá o seu tempo. É como se a dor precisasse de um tempo para madurar e então conseguir virar palavra. Foi com minha bisavó Alvina que aprendi que é possível encontrar algum tipo de cura quando somos capazes de transformar em palavras a dor que sentimos. Algumas vezes, como os amigos de Jó que ficaram sete dias em silêncio ao seu lado, é só silêncio o que alguém pode nos oferecer. O silêncio é benfazejo quando carregado de carinho, solidariedade e compaixão. Há aqueles momentos em que a dor parece grande demais e palavra nenhuma é capaz de carregá-la. “Perder um filho é uma dor sem nome”, disse uma mãe.
(Eu vi as tuas lágrimas/Editora Sinodal. 2009)
“Você não vai receber outra vida como esta. Você nunca mais vivenciará o mundo exatamente desta maneira, com esses pais, filhos, familiares e amigos. Nem experimentará a Terra com todas as suas maravilhas novamente neste período da História. Não espere o momento em que desejará dar uma última olhada no oceano, no céu, nas estrelas ou nas pessoas queridas. Vá olhar agora.”
Elisabeth Kübler-Ross e David Kessler
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
Toda mulher precisa de um chapéu vermelho e uma echarpe lilás
Brechós têm cheiros de saudade, as roupas têm histórias de perdas, de ganhos, de mortes e separações. Há aqui na cidade um, que fica na Rua Lisboa, rodeado por uma jabuticabeira e um pé de Três Marias que vai se agarrando à parede de tijolo cru até chegar na janela do segundo andar.
Numa quarta-feira, ou talvez, tenha sido uma quinta feira,resolvi entrar lá. Precisava ficar só.
Entre chapéus, echarpes e veludos fiquei olhando a cidade da janela emoldurada pelas Três Marias. Olhei com olhos de um outro tempo. Quando a vida andava em outro ritmo, mais lento. Não se corria. Do canto esquerdo, ao lado da janela, vem um cheiro de cravo destilado por uma vela que queima charmosa sobre a mesinha de imbuia. Um homem de cavanhaque grisalho e olhos de mar profundo, com um cachimbo apagado no canto direito da boca, oferece-me, em silêncio, um cálice de licor de amêndoa. Depois, aponta com o braço esquerdo para um jardim interno onde há uma pequena mesa de ferro com duas cadeiras. No canto à direita de quem entra no jardim, há um frágil pé de romã carregado de frutos maduros, ao lado, uma fonte de água convidando ao silêncio.
Antes de ir até o jardim peguei um chapéu vermelho e uma echarpe lilás, fiquei sentada ali por um bom tempo. Fiquei pensando. Pensando que o que tenho não me pertence embora faça parte de mim. Tudo o que sou, foi me emprestado, para que eu possa dividir com aqueles que entram em minha vida.
Ninguém, absolutamente ninguém, cruza nosso caminho por acaso e nós não entramos na vida de alguém sem haver alguma razão. Assim, como faço parte desse brechó, desse homem de cavanhaque com seu cachimbo apagado que me deixou ficar em meu silêncio sem querer saber o motivo de minha mudez.
Assim, também, como agora, faço parte de você e você de mim. Há muito o que dar e o que receber; há muito o que aprender, com todas as nossas experiências boas, inclusive as ruins, também com aquelas que nos fazem chorar.
Se tentarmos ver as coisas negativas que acontecem conosco como algo que tem a sua razão de ser, já aprenderemos a reclamar menos. Ficar lamentando o que aconteceu só vai cobrir os olhos com vendas pesadas. Quando não conseguimos deixar para trás as mágoas, voltando sempre de novo à elas, metendo o dedo na dor, a ferida vai se tornando maior do que era no início e não vai sarar.
Nem sempre as pessoas nos ferem voluntariamente. Muitas vezes, somos nós que nos sentimos feridos, a pessoa nem mesmo percebeu que nos feriu mortalmente. Nos sentimos decepcionados porque alguém não corresponde às nossas expectativas, mas as expectativas são somente nossas. E, sabemos quais eram as expectativas do outro em questão? Nós, tanto nos decepcionamos, quanto decepcionamos a outros. É mais fácil pensar nas coisas que nos atingem. Quando alguém lhe disser que magoou sem intenção. Acredite! Vai lhe fazer bem, e assim talvez ela poderá entender quando você, sinceramente, disser “foi sem querer”.
Dê de você mesmo o quanto puder! Você sabe, que quando você se for, a única coisa que vai deixar é a lembrança do que foi aqui nessa vida? Seu cheiro será saudade, suas roupas recordarão momentos, causas, perdas e suas histórias. Portanto, seja bom, tente dar sempre os passos necessários. Nunca negue a ajuda que está ao seu alcance. Perdoe. Seja uma bênção. Deus não vem em pessoa para nos abençoar. Ele usa os que estão aqui dispostos a cumprir essa missão. Viva de maneira que, quando você se for, muito de você ainda fique naqueles que tiverem a oportunidade de conhecê-lo.
Lembro ainda hoje, a bênção que foi aquele homem naquela quarta-feira no brechó brindando o meu silêncio com aquele licor. Lembro, como se fosse agora que, depois de algum tempo, talvez tivessem se passado horas, levantei e entreguei o chapéu e a echarpe. Mas ele me disse calmamente: “Leve! Toda mulher precisa de um chapéu vermelho e uma echarpe lilás.”
Então, fui para a vida. Certa que seria mais feliz com meu chapéu vermelho e minha echarpe lilás.
(Vera Cristina Weissheimer)

Brechós têm cheiros de saudade, as roupas têm histórias de perdas, de ganhos, de mortes e separações. Há aqui na cidade um, que fica na Rua Lisboa, rodeado por uma jabuticabeira e um pé de Três Marias que vai se agarrando à parede de tijolo cru até chegar na janela do segundo andar.
Numa quarta-feira, ou talvez, tenha sido uma quinta feira,resolvi entrar lá. Precisava ficar só.
Entre chapéus, echarpes e veludos fiquei olhando a cidade da janela emoldurada pelas Três Marias. Olhei com olhos de um outro tempo. Quando a vida andava em outro ritmo, mais lento. Não se corria. Do canto esquerdo, ao lado da janela, vem um cheiro de cravo destilado por uma vela que queima charmosa sobre a mesinha de imbuia. Um homem de cavanhaque grisalho e olhos de mar profundo, com um cachimbo apagado no canto direito da boca, oferece-me, em silêncio, um cálice de licor de amêndoa. Depois, aponta com o braço esquerdo para um jardim interno onde há uma pequena mesa de ferro com duas cadeiras. No canto à direita de quem entra no jardim, há um frágil pé de romã carregado de frutos maduros, ao lado, uma fonte de água convidando ao silêncio.
Antes de ir até o jardim peguei um chapéu vermelho e uma echarpe lilás, fiquei sentada ali por um bom tempo. Fiquei pensando. Pensando que o que tenho não me pertence embora faça parte de mim. Tudo o que sou, foi me emprestado, para que eu possa dividir com aqueles que entram em minha vida.
Ninguém, absolutamente ninguém, cruza nosso caminho por acaso e nós não entramos na vida de alguém sem haver alguma razão. Assim, como faço parte desse brechó, desse homem de cavanhaque com seu cachimbo apagado que me deixou ficar em meu silêncio sem querer saber o motivo de minha mudez.
Assim, também, como agora, faço parte de você e você de mim. Há muito o que dar e o que receber; há muito o que aprender, com todas as nossas experiências boas, inclusive as ruins, também com aquelas que nos fazem chorar.
Se tentarmos ver as coisas negativas que acontecem conosco como algo que tem a sua razão de ser, já aprenderemos a reclamar menos. Ficar lamentando o que aconteceu só vai cobrir os olhos com vendas pesadas. Quando não conseguimos deixar para trás as mágoas, voltando sempre de novo à elas, metendo o dedo na dor, a ferida vai se tornando maior do que era no início e não vai sarar.
Nem sempre as pessoas nos ferem voluntariamente. Muitas vezes, somos nós que nos sentimos feridos, a pessoa nem mesmo percebeu que nos feriu mortalmente. Nos sentimos decepcionados porque alguém não corresponde às nossas expectativas, mas as expectativas são somente nossas. E, sabemos quais eram as expectativas do outro em questão? Nós, tanto nos decepcionamos, quanto decepcionamos a outros. É mais fácil pensar nas coisas que nos atingem. Quando alguém lhe disser que magoou sem intenção. Acredite! Vai lhe fazer bem, e assim talvez ela poderá entender quando você, sinceramente, disser “foi sem querer”.
Dê de você mesmo o quanto puder! Você sabe, que quando você se for, a única coisa que vai deixar é a lembrança do que foi aqui nessa vida? Seu cheiro será saudade, suas roupas recordarão momentos, causas, perdas e suas histórias. Portanto, seja bom, tente dar sempre os passos necessários. Nunca negue a ajuda que está ao seu alcance. Perdoe. Seja uma bênção. Deus não vem em pessoa para nos abençoar. Ele usa os que estão aqui dispostos a cumprir essa missão. Viva de maneira que, quando você se for, muito de você ainda fique naqueles que tiverem a oportunidade de conhecê-lo.
Lembro ainda hoje, a bênção que foi aquele homem naquela quarta-feira no brechó brindando o meu silêncio com aquele licor. Lembro, como se fosse agora que, depois de algum tempo, talvez tivessem se passado horas, levantei e entreguei o chapéu e a echarpe. Mas ele me disse calmamente: “Leve! Toda mulher precisa de um chapéu vermelho e uma echarpe lilás.”
Então, fui para a vida. Certa que seria mais feliz com meu chapéu vermelho e minha echarpe lilás.
(Vera Cristina Weissheimer)
As chuvas de março
A pior maneira de manter um casamento
é privando o outro de sua liberdade.
Se você amarrar dois pássaros,
eles terão quatro asas,
mas nunca conseguirão voar.
(Djeladin Rumi)
A pior maneira de manter um casamento
é privando o outro de sua liberdade.
Se você amarrar dois pássaros,
eles terão quatro asas,
mas nunca conseguirão voar.
(Djeladin Rumi)
As chuvas de março trazem um cheiro de terra molhada, mesmo onde o asfalto já sepultou quase todos os jardins e os playgrounds têm grama artificial. O cheiro é tão convidativo que levanto da cama e no escuro da sala vejo pela janela a cidade sendo lavada. A noite é quebrada por raios vorazes. Depois, novamente, a calma da chuva como o bater calmo do coração do homem que convida você para deitar sobre seu peito para, mais uma vez, refazerem os acordos, para depois desfazê-los e quebrá-los novamente. Afinal, acordos são para isso.
Casamento é um fazer acordos e quebrar acordos firmados por dois apaixonados para depois fazer outros, mais de acordo com a nova fase do amor. O amor tem mais fases que a lua, mais tensões que as mulheres em período menstrual.
Mas a vida fica mais leve e o casamento, essa aliança que você faz com alguém terá mais sentido se estiver verdadeiramente apaixonado por você mesmo. É uma aliança com você mesmo. Isso é obvio demais? Mas também o óbvio precisa ser repetido até fazer sentido. Precisamos nos amar profundamente para amarmos outra pessoa. Do contrário, amamos mal.
Apaixonar-se pela gente é a mais difícil das tarefas. Comece por apaixonar-se pelas suas memórias mais deliciosas. Ninguém pode tirá-las de dentro de você, seus causos, suas risadas mais endiabradas, aqueles momentos em que você teve coragem de desembarcar da tristeza, tudo isso será uma excelente fonte de inspiração em momentos escuros.
Pare de acreditar que o outro será o seu remédio, a sua metade, aquela porção que vai completar o imenso buraco de sua alma. Isso é tarefa grandiosa por demais para jogar assim, sem mais nem menos, nas mãos de nossos amados e amadas. Seremos sempre frações, mas ainda assim, é possível ter momentos de completude sozinha numa madrugada diante da janela vendo a chuva bater contra o vidro.
Há um rio de forças e de luz que corre ai dentro de você. É preciso entrar nessas águas sem tantos medos. Então, vai encontrar ali o seu ponto de ligação com o divino, o fio invisível que conecta você aos mistérios da vida. Você continuará fração, mas a busca pela plenitude já não estará mais no outro mas em você mesmo, no encontro profundo e íntimo com as partes que ficaram perdidas em algum lugar.
O amor de duas pessoas inteiras, ainda que fracionadas, é mais saudável, haverá mais aconchego, menos exigência, mais respeito e muito mais perdão.
Para ir ao encontro dessas águas que correm em você, não há receita, nem cartilha ou métrica. Algumas vezes é preciso aceitar que a maré suba e inunda tudo, que a correnteza derrube, que o barco vire para permitir-se ancorar em outras margens.
Então, apaixone-se sempre de novo por você, pelos seus segredos. Afinal, precisamos de segredos e mistérios, para não sucumbir às banalidades dessa vida e às cobranças dos outros. Apaixone-se sempre por seus pontos fortes mesmo que os pontos fracos insistam em ficar em alto relevo no seu cérebro. Apaixone-se por suas idéias, mesmo que tenham dito que elas não serviam para nada. Apaixone-se pela música que você pode ser para alguém. Apaixone-se por você e será mais feliz com quem estiver ao seu lado.
Fecho a janela, me despeço da chuva e volto para a cama onde dorme meu amor coberto pela madrugada.
(Vera Cristina Weissheimer)
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