Afasto-me da janela. Acendo uma vela para espantar a escuridão da sala. De repente, sinto dor, tanta dor que já nem sei se é no corpo, n’alma ou se é medo de não ser. Escorro pelas paredes como um relógio de Salvador Dalí. Sinto-me líquida, sem forças para abrir a janela e respirar o ar lá de fora – promessa do vento, que vejo lamber as árvores. Ah! É-me pesado demais respirar. A dor é faca afiada que entra na carne e lá se revolve estraçalhando, abrindo sulcos como o torno que gira em minha cabeça. Nesses momentos, e só nesses momentos, consigo concordar com Schopenhauer, filósofo alemão, que disse que a vida se resume na tristeza. Na maior parte do tempo, acredito que o sofrimento é necessário, mas a alegria é revolucionária e nos liberta. Isto é Nietzsche, outro filósofo. A tristeza debilita nossa alma, mas também nos leva para um poço profundo dentro de nós. Enquanto caímos, vamos perdendo nossas forças para redescobri-las lá no fundo. Precisamos nos esvaziar daquilo que julgávamos que nos pertencia, nossas forças, nossos amores, nossas alegrias, nossas perdas. Parece um contrassenso encontrar as forças em nossa mais dolorida fraqueza. Mas é lá, no mais profundo de nosso poço interior, que descobrimos que há um recomeço possível. Há um mistério que nos liga com algo que transcende a nossa própria vida, com aquilo que não conhecemos e não chegaremos a conhecer, justamente porque é mistério. Quando descobrimos esse fio de ligação com o sagrado, somos salvos de nossa própria arrogância. Lembro do desespero dos discípulos de Jesus que não conseguem
se conter diante do pânico dentro de um barco que parece querer virar, assolado pelos ventos de uma tempestade em alto mar. São tomados de uma profunda decepção e tristeza ao perceberem que seu mestre dorme sobre a almofada do timoneiro na proa (Lucas 8.22-25). Como disse Tereza de Ávila: “Se ele dorme em nosso barco, porque ter medo?”. Que possamos (tentar) enterrar as tristezas, as sombras e os medos e ir atrás da alegria perdida, porque também o Mestre espantou as tempestades,
acalmou o mar. Ele dorme em nosso barco, por que então o desespero com a tempestade?
(Vera Cristina Weissheimer do livro "Escolhas")
terça-feira, 6 de setembro de 2011
Dê-me três razões para continuar viva...
(Lya Luft. Perdas e Ganhos. Rio de Janeiro/São Paulo: Editora Record. 2003 p. 54-55)
A mulher estava pegando as chaves do carro (o marido já tinha saído para levar as crianças à escola) quando tocaram a campainha.
Vagamente irritada, pois já se atrasara o bastante, ela abre a porta:
- Sim?
O rapaz alto e estranho, andrógino, belo e feio, alto e baixo, negro e louro, faz um sinalzinho dobrando o indicador:
- Vim buscar você.
Não era preciso explicar, a mulher entendeu na hora: o Anjo da Morte estava ali, e não havia como escapar. Mas, acostumada a negociações, mesmo perturbada ela rapidamente pensou que era cedo, cedo demais, e tentou argumentar:
- Mas, como, o quê? Agora, assim sem aviso sem nada? Nem um prazo decente?
O Anjo sorri, um sorriso bondoso e perverso, suspira e diz:
- Mas ninguém tem a originalidade de me receber com simpatia neste mundo, ninguém nunca está preparado? Está certo que você só tem 40 anos, mas mesmo os de 80 se recusam.
A mulher agarrou firme a chave do carro, que afinal encontrara na bolsa, e insistiu:
-Vem cá, me dá um chance.
O Anjo teve pena, aquela mulher estava realmente apavorada. Ah! Os humanos... Então teve um acesso de bondade e concedeu:
-Tudo bem. Eu te dou uma chance, se você me der três boas razões para não vir comigo desta vez.
(Passava um brilho malicioso nos olhos azuis e negros daquele Anjo.)
A mulher aprumou-se, claro, ela sabia que ia dar certo. Mas quando abria a boca para começar sua ladainha de razões, muito mais que três, ah sim, o Anjo ergueu um dedo imperioso:
- Espera aí. Três razões, mas...não vale dizer que é por que o marido e filhos precisam de você. O que interessa é você, você mesma.Por que valeria a pena ainda deixa-la por aqui algum tempo?
Com que argumentos persuadiríamos o anjo visitante de ainda não nos levar?
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
Fazer escolhas
Viver é, o tempo todo, fazer escolhas. Escolher seguir por ali ou por aqui, rumar para o oeste e não para qualquer outra direção que indiquem os pontos cardeais. É escolher abrir a porta e outras vezes fechar, é escolher chorar algumas vezes, mas também rir tantas outras, é rir da vida e de si mesmo. Viver é escolher e acolher as conseqüências dessas escolhas como frutos que nos pertencem. Não escolher já é fazer uma escolha, escreve Viktor Frankl. Quando portas forem se fechando diante de nós, à revelia de nossa vontade, temos ainda, em nossas mãos, o poder de escolher que atitude tomar diante do que nos aconteceu. Podemos ser as vítimas do acaso, das mãos alheias, do destino, ou podemos continuar sendo os escrivinhadores da própria história.
Se, nesses momentos em que portas se fecham, dermos uma pequena chance a nós mesmos e olharmos para os lados podemos ser surpreendidos com outras portas se abrindo. A porta que é fechada gera um vácuo que abre outras. Na pior das hipóteses, se não encontrar nenhuma porta aberta, haverá janelas. E, algumas vezes, são essas janelas, que se abrem tímidas, que nos convidam para dar uma espiada por entre as suas vidraças. E é justamente ali que podemos enxergar algum horizonte.
Escolher viver é tomar consciência de que é essa a vida que temos para viver e que ela é por demais curta para ser vivida de forma pequena. Como saber se estamos no caminho certo, se fizemos as escolhas certas? A vida nos trará essas respostas.
(Vera Cristina Weissheimer)
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
terça-feira, 14 de setembro de 2010
Quando criança, muitas vezes perguntei à minha bisavó Alvina sobre os porquês de acontecerem coisas ruins às pessoas boas que eu conhecia. Contando suas histórias e causos, minha bisavó encontrou uma maneira de responder às minhas perguntas e acalmar-me em minhas dúvidas. Nunca tive certeza se o que ela me contava era verdadeiro ou inventado. Na verdade, muito mais tarde aprendi que as histórias, quando servem para iluminar aquelas partes da vida que ainda não compreendemos, tornam-se verdadeiras – porque a luz que lançam sobre nossas dúvidas e medos é verdadeira.
Uma das histórias que muitas vezes ouvi como resposta à minha pergunta fala sobre uma mulher desesperada que procura um remédio para tirar seu bebê do colo da morte.
Uma mulher viu seu filho, ainda bebê, ficar doente e morrer em seus braços. Desesperada por não saber nem conseguir fazer nada para salvar seu filho, a pobre mulher saiu pelas ruas implorando que alguém a ajudasse a encontrar um remédio que o salvasse da morte. Como ninguém podia ajudá-la, a mulher foi procurar um sábio que morava nas montanhas. Com a criança nos braços, tentou explicar sua angústia.
O sábio homem, então, respondeu que havia somente uma maneira para que a mulher pudesse encontrar alívio para a sua dor. Ela deveria voltar para a sua cidade e trazer para ele uma semente de mostarda de uma casa onde não houvesse sofrimento por causa de alguma perda. A mulher ficou cheia de esperança. Foi, então, de casa em casa. Mas, para sua surpresa, ouvia sempre a mesma resposta. “Muita gente já morreu nesta casa”; “muitos sonhos se perderam nessa família”; “desculpe, já houve morte em nossa família”; “aqui nós perdemos um bebê também”.
Depois de percorrer todas as casas de sua aldeia sem conseguir a sua semente de mostarda, a mulher compreendeu a lição. Então, voltou à montanha e disse ao sábio: “A dor me deixou cega.
Eu me sentia a única pessoa sofrendo na face da terra, a única que perdera um filho, a única a segurar seu bebê morto nos braços.
Já recebi essa história por e-mail como sendo uma lenda chinesa, uma história russa, uma fábula tibetana e por último como uma lenda africana. Esse tipo de fábula se espalha por diferentes culturas, porque a necessidade de entender a dor provocada pela morte de alguém que amamos é a mesma em qualquer parte do mundo. Talvez esta tenha sido criada por alguém que precisou dar sentido à sua dor ou à dor de quem amava e se fazia a mesma pergunta: por que coisas ruins acontecem às pessoas boas?
Uma das histórias que muitas vezes ouvi como resposta à minha pergunta fala sobre uma mulher desesperada que procura um remédio para tirar seu bebê do colo da morte.
Uma mulher viu seu filho, ainda bebê, ficar doente e morrer em seus braços. Desesperada por não saber nem conseguir fazer nada para salvar seu filho, a pobre mulher saiu pelas ruas implorando que alguém a ajudasse a encontrar um remédio que o salvasse da morte. Como ninguém podia ajudá-la, a mulher foi procurar um sábio que morava nas montanhas. Com a criança nos braços, tentou explicar sua angústia.
O sábio homem, então, respondeu que havia somente uma maneira para que a mulher pudesse encontrar alívio para a sua dor. Ela deveria voltar para a sua cidade e trazer para ele uma semente de mostarda de uma casa onde não houvesse sofrimento por causa de alguma perda. A mulher ficou cheia de esperança. Foi, então, de casa em casa. Mas, para sua surpresa, ouvia sempre a mesma resposta. “Muita gente já morreu nesta casa”; “muitos sonhos se perderam nessa família”; “desculpe, já houve morte em nossa família”; “aqui nós perdemos um bebê também”.
Depois de percorrer todas as casas de sua aldeia sem conseguir a sua semente de mostarda, a mulher compreendeu a lição. Então, voltou à montanha e disse ao sábio: “A dor me deixou cega.
Eu me sentia a única pessoa sofrendo na face da terra, a única que perdera um filho, a única a segurar seu bebê morto nos braços.
Já recebi essa história por e-mail como sendo uma lenda chinesa, uma história russa, uma fábula tibetana e por último como uma lenda africana. Esse tipo de fábula se espalha por diferentes culturas, porque a necessidade de entender a dor provocada pela morte de alguém que amamos é a mesma em qualquer parte do mundo. Talvez esta tenha sido criada por alguém que precisou dar sentido à sua dor ou à dor de quem amava e se fazia a mesma pergunta: por que coisas ruins acontecem às pessoas boas?
Muitas vezes ouvi a minha bisavó Alvina, rodeada de mulheres, contar suas histórias em torno do fogão a lenha. Outras vezes, ela ficava em silêncio e ouvia atentamente as dores que lhe eram confidenciadas, enquanto tomava o seu chimarrão. Era muito comum que depois da morte de algum vizinho as mulheres se reunissem em sua casa. Então, era hora de costurarem velhas e novas recordações para que o morto não fosse tão rapidamente esquecido.
Há uma pequena história que lembro ter ouvido minha bisavó contar inúmeras vezes. É sobre o medo de se arriscar a viver. Mesmo que fiquemos parados no mesmo lugar por horas ou dias, ainda assim, a vida vai passar – por nós –, o tempo vai passar e vamos envelhecer sem termos vivido, porque estávamos parados. A história era mais ou menos assim:
Era uma vez um riacho de águas limpas e cristalinas que serpenteava por montanhas lindíssimas. Em certo ponto de seu percurso, o riacho notou que à sua frente havia um pântano imundo, por onde teria que passar com as suas águas transparentes.
Olhou, então, para Deus e protestou: “Senhor, que castigo! Eu sou um riacho tão límpido, tão formoso, e você me obriga a atravessar um pântano sujo como esse? Como faço agora?”
E Deus respondeu: “Isso depende de sua maneira de encarar o pântano. Se ficar com medo, vai diminuir o ritmo de seu curso, dará voltas e, inevitavelmente, acabará misturando suas águas com as do pântano, o que o tornará igual a ele.
Se você enfrentar o pântano com velocidade, com força, com decisão e coragem, vai atravessá-lo abrindo caminho em meio à lama. Deixará para trás parte de suas águas, mas vencerá o pântano. Mas o que é perder parte das águas para a tragédia comparado a se perder totalmente no pântano?”
Minha bisavó era a conselheira da vizinhança. As conversas na sua cozinha eram terapêuticas. “Não é preciso ter pressa em soltar os nós”, dizia ela. Portanto, não apresse quem está do seu lado sofrendo em silêncio. Há tempo de ficar calado e há tempo de falar. Tudo terá o seu tempo. É como se a dor precisasse de um tempo para madurar e então conseguir virar palavra. Foi com minha bisavó Alvina que aprendi que é possível encontrar algum tipo de cura quando somos capazes de transformar em palavras a dor que sentimos. Algumas vezes, como os amigos de Jó que ficaram sete dias em silêncio ao seu lado, é só silêncio o que alguém pode nos oferecer. O silêncio é benfazejo quando carregado de carinho, solidariedade e compaixão. Há aqueles momentos em que a dor parece grande demais e palavra nenhuma é capaz de carregá-la. “Perder um filho é uma dor sem nome”, disse uma mãe.
(Eu vi as tuas lágrimas/Editora Sinodal. 2009)
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